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Pegou o bonde andando e quer sentar na janelinha

(Ou: Sobre fortalecer a autonomia das crianças na resolução de conflitos)


Por Lilia Standerski



Num sábado, fim de tarde, duas crianças brincam com blocos de construir. A mais nova arranca da casa de blocos da mais velha um brinquedo muito desejado pelas duas: não para usá-lo em sua construção, apenas para possuí-lo. Os adultos responsáveis, que saudavelmente conversavam sobre outros assuntos ali ao lado, escutam apenas o diálogo seguinte à situação descrita:


Mais velha: “Devolve!”

Mais nova: “Não!”

Mais velha: “Eu tava usando na minha casa!”

Mais nova: “Não! Eu quero!”

Mais velha: ”...” - com cara frustrada

Adulto 1: "Deixa ele, tem tanto bloco aí! Pega outro."

Adulto 2: "Daqui a pouco você empresta então pra ele."

Adulto 3: "Devolve agora."

As crianças permanecem em silêncio, como que esperando uma resolução. Um quarto adulto, que observava as duas brincando já há algum tempo, revela a cena que se passou anterior ao diálogo, explicando aos outros o contexto daquela conversa entre as crianças. O adulto 2 então se levanta e pede para a mais nova devolver o brinquedo. Ela não devolve. O brinquedo é então retirado da mão desta e colocado sobre a mesa em que os adultos estão: “Agora voce não vai mais usar”. Após algum tempo, a mais nova pede mais uma vez o brinquedo. A mais velha continua com a cara frustrada e em silêncio.

Repare que nas últimas linhas não há comunicação alguma entre as crianças. Por que isso acontece? Analisando mais de perto as intervenções dos adultos na brincadeira, todas as falas são sugestões (e quase imposições) de como elas podem resolver aquela situação. No entanto, em nenhum momento a palavra é dada aos envolvidos no conflito. Os adultos pegaram o bonde andando e quiseram sentar na janelinha.

Aos olhos da criança mais velha não fez sentido algum aquela conversa entre adultos, até porque a pequena ficou sem o brinquedo, mas ela também. Por uma decisão de alguém que não havia vivenciado a brincadeira, o brinquedo foi retirado de circulação.

Quem le esse relato pode pensar que minha sugestão seria olhar mais de perto as brincadeiras das crianças, para não perder cena alguma e poder fazer uma intervenção mais cabida. No entanto, há saúde em brincadeiras não supervisionadas pelos adultos: é essencial que as crianças tenham (muitos) momentos para brincarem dessa forma, conforme suas próprias regras. E também há saúde em adultos que, mesmo na presença de crianças, consigam conversar sobre outros assuntos que não elas.

Proponho então que quando estiverem perto de algum conflito entre crianças primeiro observem: deem algum tempo para que elas busquem uma solução sozinhas. Caso não funcione, sugira que falem sobre o ocorrido. Muitas vezes quando verbalizamos o que aconteceu vemos com outros olhos as situações, há um distanciamento, mesmo que mínimo. E com a contextualização feita pelas crianças é possível, caso ainda seja necessário, o adulto fazer uma intervenção mais adequada, que possibilite a criação de uma resolução por elas próprias. Falas como as seguintes podem ajudar nessa construção: “O que aconteceu?”, “Vamos ouvir um de cada vez.”, “Você ouviu o que ele disse? O que acha?”, “Como farão agora?”. Podemos pegar o bonde andando, mas não precisamos sentar na janelinha.