O (des)conforto do silêncio




“Sabemos muito mais do que podemos falar, entretanto quase

chegamos a acreditar que o que falamos é tudo o que sabemos.”

Yi Fu Tuan



Você entra no elevador, tem outra pessoa: silêncio. Você é o primeiro

a chegar numa festa, não conhece muito bem o aniversariante: silêncio. O

professor pergunta algo durante a aula, ninguém responde de primeira:

silêncio. Uma criança faz uma pergunta, você não sabe a resposta: silêncio.


Em fevereiro participei de um encontro promovido pelo Instituto Alana

e pelo projeto Território do Brincar, foi o primeiro de uma série chamada

Diálogos do Brincar. Na ocasião Renata Meirelles e David Reeks falaram

sobre o projeto e sobre o brincar. Uma pessoa perguntou se eles tinham visto

diferenças entre o brincar na cidade e no interior e Renata respondeu: “A

maior diferença que percebemos é que nas brincadeiras da cidade se fala

mais. Há uma necessidade de falar.”


Essa fala está ecoando em mim desde então. Comecei a prestar mais

atenção no quanto as crianças falam em suas brincadeiras na Ubá, e mais

ainda, no quanto os adultos falam com as crianças. Quando estão brincando

é comum os adultos perguntarem o que estão fazendo e se as crianças não

respondem, vão dando opções. Se estão comendo, puxamos assuntos, não

paramos de fazer perguntas. Será uma necessidade realmente necessária, a

de falarmos tanto?


Nas últimas semanas na Ubá os lanches tem sido menos falados. Hoje

uma criança escutou um latido de cachorro, ficamos todos tentando saber de

onde vinha o latido. Nessa procura olhamos para as casas vizinhas, demos

atenção à escuta, fechamos os olhos para ouvir melhor. Temos dado uma

nova atenção aos momentos de não-fala: quando não se fala, se escuta

melhor.


Veja, não estou falando de não conversar com as crianças, mas

propondo que deixemos mais momentos de suspensão, de silêncios que não

mais nos incomodem, mas que sejam sentidos como respiros. Nesse mesmo

encontro de que falei ambos falaram da importância de deixarmos o

espontâneo emergir nas crianças, das potências aparecerem. Como será

possível se o tempo todo estamos preocupados em ocupar o silêncio?


É urgente que as crianças tenham mais tempo na vida sem pessoas o

tempo todo conversando com elas. Como diz Yi Fu Tuan, “as atividades

rotineiras e tarefas usuais não exigem pensamento analítico. Quando

desejamos fazer algo diferente ou que sobressaia, necessitamos então parar,

considerar, pensar.”


É possível haver conforto no silêncio?